A dor feminina e a sua opinião

A dor feminina e a sua opinião

O impacto biológico da dor, o seu significado e a reação que suscita na pessoa são diferentes na mulher em comparação com o homem. Disso, já há evidências. O que me intriga é como esse achado é visto em países desenvolvidos, desde o Reino Unido e Canada, passando pelos EUA e indo para Austrália, em comparação com como ele é visto no Brasil. Lá fora, a constatação gera uma denúncia: por que isso é ignorado pelos laboratórios ao testar novas drogas, ou comercializar as antigas? Até pouco tempo atrás, o FDA americano excluía as mulheres das amostras em que as novas drogas eram testadas. E por que as dores femininas não são tão levadas a sério quanto deveriam pelos médicos, que as atribuem a emoções, catastrofismo, depressão etc.? Numa pesquisa canadense, 80% das mulheres entrevistadas declararam ter se sentido constrangidas ou não escutadas pelos médicos que as examinaram. Se você for comentar sobre DORES FEMININAS NO BRASIL, você incluiria as questões anteriores – que pouco têm a ver com biologia – ou as deixaria de fora por serem irrelevantes para a saúde da mulher?

“Mulheres e Doenças Cardíacas: Novos Dados Reafirmam Falta de Consciência por Parte de Mulheres e Médicos.”

Eis uma das várias manchetes surgidas recentemente na mídia da América do Norte repercutindo um estudo sobre mulheres e doenças cardíacas publicados no Journal of American College of Cardiology.1

Segundo o principal autor do estudo, o cardiologista Dr. Noel Bairey Merz, do Cedars Sinai Heart Institute em Los Angeles, “… a crescente conscientização sobre doenças cardiovasculares nas mulheres parou sem grandes progressos em quase 10 anos”.

Aviso aos navegantes: No Brasil, assim como na América do Norte, as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre as mulheres, de acordo com o Ministério da Saúde.

De fato, enquanto o infarto masculino é precedido por uma forte dor no peito que irradia para os braços, já as mulheres sentem dor no pescoço, mandíbula, ombro, parte superior das costas ou dores gástricas; falta de ar; dor em um ou ambos os braços; náusea ou vômito; sudorese; tontura e/ou fraqueza incomum – a maioria sintomas que podem ser confundidos com outras doenças. Para confundir mais as coisas (principalmente para os internos que recebem as mulheres no Pronto Socorro), entre 8-10% delas não experimenta qualquer dor no peito ao sofrer um ataque cardíaco (alguns autores cravam “até 40%”).2

Até aqui, então, a manchete mencionada acima teria como única explicação a falta de preparo técnico do sistema de saúde – casas e profissionais da saúde – para dar a mulher um atendimento condizente com a sua especificidade. Afinal, existem nela fatores especiais como aparelho reprodutor, gravidez, menopausa, resposta a plaquetas… associados a doenças e dores também especiais.3

O Dr. Merz, porém, agregou:

“Estamos com 50 anos de atraso em nosso conhecimento sobre a triagem, o diagnóstico e os regimes de tratamento ideais para doenças cardíacas em mulheres, em comparação com o que sabemos sobre doenças cardíacas em homens – e todos os dias, as mulheres pagam o preço”.

Como assim: “pagam o preço”? Que “preço” seria esse?

Na virada do século, uma revisão da literatura recente sobre a dor feminina, “The Girl Who Cried Pain: A Bias Against Women in the Treatment of Pain”, de Dianne E. Hoffman e Anita J. Tarzian, apontou que, sim, que homens e mulheres sentem e lidam com a dor de forma diferente; contudo, por razões biológicas e também culturais. A hegemonia masculina prevalente na sociedade inspiraria pressupostos, ou preconceitos, ou vieses sobre a relação de ambos os sexos com a dor. E estes justificariam moralmente o fato de:

“… as mulheres…serem subtratadas ou inapropriadamente diagnosticadas e tratadas por sua dor”.4

Exemplo: Um estudo publicado no European Heart Journal em 2016 constatou que os médicos têm duas vezes mais probabilidade de ignorar os sintomas de dor em mulheres que sofrem um ataque cardíaco. E o motivo seria…? Uma suposição: que as mulheres lidam melhor com a dor.

“Ora, a mulher aguenta as dores da menstruação e da gravidez; cuida do lar, família e emprego; e não parece estar à beira da morte – como o marido – quando pega uma gripe. Ela obviamente suporta melhor a dor!”.

Pode até ser óbvio, mas não passa de uma conjectura carente de prova científica.

O apresentado acima, em todo caso, levou as autoras de “The Girl Who Cried Pain” a propor um paradoxo:

  • Em geral, as mulheres relatam níveis mais severos de dor, incidências mais frequentes de dor e dor de maior duração que os homens, mas…
  • são tratadas em sua dor de forma mais leviana, menos agressiva… com consequências nocivas.

Como eu estou preparando um ebook sobre as dores femininas, me interessei na possibilidade de cobrir o paradoxo por completo.

Ou seja, eu examinaria, primeiro, a questão de se homens e mulheres de fato experimentam a dor de forma distinta. E mais precisamente, se a mulher sofre mais com dor do que o homem.

E depois, ao examinar as explicações para as diferenças de gênero anteriores focaria não apenas as causas biológicas, mas também as psicossociais e culturais. Incluindo a possibilidade de preconceitos de gênero estarem provocando diferenças de atendimento por parte do sistema de saúde, com prejuízo para as mulheres em relação aos homens.

Eis o que eu chamo de PARADOXO DE EVA, o título desse ebook. Para testá-lo, as questões que eu examinaria seriam as seguintes:

  • Os homens e as mulheres de fato experimentam a dor de forma distinta? A mulher sofre mais com dor do que o homem? E se isso for verdade, sofre mais porque o sistema de saúde a trata de maneira desigual? Ao não levar a sério suas dores típicas por elas serem invisíveis, imaginárias, provocadas pelo “psicológico” etc., por exemplo?
  • E se o anterior for verdade, até que ponto preconceitos de gênero teriam a ver com isso?

Mas há um problema. Um problemão, aliás. Dados sobre este último ponto os há, às pencas, na América do Norte (EUA/Canada), no Reino Unido, na Suécia, na Austrália… mas não no Brasil. Por aqui, não há estudos publicados sobre o eventual “pouco caso” recebido pela mulher por parte de médicos, planos de saúde etc. pelo fato de ela ser, enfim, mulher. E será que tal ausência prova que os médicos não esnobam as dores femininas no Brasil, e portanto, elas não correm os mesmos riscos à saúde que suas congêneres americanas, canadenses, inglesas, suecas, australianas… afirmam correr?

Eu sou desconfiado por natureza e diria que não, que aquilo nada prova e que não há razão aparente para o atendimento dispensado à mulher pelos profissionais da saúde noutros países mais desenvolvidos ser fortemente criticado, e aqui não.

Mas eu sou homem, gênero masculino e tal, não tenho experiência nem moral para me colocar nas botas de uma mulher.

E assim sendo, enfrento um dilema em relação ao ebook sobre dores femininas que estou prestes a iniciar:

  • limito-me à primeira parte do Paradoxo de EVA – a dor feminina é diferente da masculina,
  • ou o cubro por completo, examinando também – mesmo com escassos dados brasileiros – se o atendimento dispensado à mulher pelo sistema de saúde é inferior ao do homem por razões de preconceito de gênero?

Na dúvida, me ocorreu que, bem, cada post aqui publicado costuma ter uma centena de leitores nos primeiros dois dias (dados do Google) e muitos deles são mulheres. No Facebook, os seguidores da página do blog já atingem 40 mil – e muitos deles são mulheres. E o ebook é sobre algo que deveria interessar… às mulheres!

Então por que não pedir ajuda a elas? Como? Simples e fácil: participando de uma enquete.

ALTERNATIVA 1

Em geral, as mulheres relatam níveis mais severos de dor, incidências mais frequentes de dor e dor de maior duração que os homens, mas…

ALTERNATIVA 2

… são tratadas em sua dor de forma mais leviana, menos agressiva (no bom sentido)… com consequências nocivas para elas.

ÚNICA PERGUNTA

Um ebook sobre dores femininas destinado a leitore(a)s no Brasil deveria abranger:

  • SOMENTE A ALTERNATIVA 1
  • AS DUAS ALTERNATIVAS

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Uma centena de respostas me ajudaria a decidir. Quem responder receberá o ebook de graça.

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