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A dor crônica e “a arte da guerra”

A dor crônica e “a arte da guerra”

Há quase 2.500 anos, Sun Tzu escreveu “A Arte da Guerra”, um livro que forneceu – e ainda fornece – a líderes de todo o mundo diretrizes para alcançar o sucesso em qualquer “campo de batalha”. Essas mesmas estratégias e táticas também funcionam na contenda do portador de dor crônica com planos de saúde, profissionais semipreparados e principalmente, a sua própria ignorância no que se refere a condição que carrega. Principal (e perigoso) exemplo dessa falta de cultura é a de pretender uma cura rápida e completa. Este post mostra o confronto entre essa pretensão com a sabedoria de Sun Tzu.

“Parte de… ser um herói é saber quando você não precisa mais ser um.”

– Alan Moore

Há tempo, quando eu militava no mundo corporativo, o livro “A Arte da Guerra” de Sun Tzu, era a leitura da vez entre os executivos, especialmente os mais jovens. Para eles, que viam na concorrência um inimigo a ser derrotado, aprender sobre como fazê-lo fazia todo sentido. Logo, logo, no entanto, sobrevinha um discreto desencanto. Para quem conseguia ler nas entrelinhas, e também nas traçadas no livro, Sun Tzu era quase um pacifista. E talvez o fosse, uma vez que, dizem por aí, ele era devoto de Tao Te Ching, a doutrina religiosa taoísta, que nos ensina como encontrar o equilíbrio em tudo o que pensamos e fazemos nesta vida.

Mas, o que Sun Tzu e seu livro escrito há vários séculos têm a ver comigo, você deve estar se perguntando. De fato, nada, se você não for portador de dor crônica. Caso contrário, fique comigo mais uns minutos que pode lhe fazer bem.

A “Arte da Guerra”, então, era mais belicoso no título do que no conteúdo. O texto não era pródigo em táticas militares, e sim em pensamentos que para os ardorosos executivos com menos de 40 anos soavam – e provavelmente ainda soam – inócuos, de tão óbvios que são.

“Diante de uma larga frente de batalha, procure o ponto mais fraco e, ali, ataque com a sua maior força.” (Alexandre O Grande, aliás, fez isso duas vezes contra os persas em 331 AC, e se deu bem.)

“Não é preciso ter olhos abertos para ver o sol, nem é preciso ter ouvidos afiados para ouvir o trovão. Para ser vitorioso você precisa ver o que não está visível.” (Se Napoleão tivesse visto em sonhos o que o inverno russo em 1812 reservava a seu exército de 600 mil soldados, não teria sacrificado 560 mil.)

“Triunfam aqueles que sabem quando lutar e quando esperar.” (Pois é. Os que ordenaram a famosa (e desastrosa) carga da cavalaria ligeira britânica na Batalha de Balaclava em 1854, na Crimeia, em que 651 ginetes acometeram contra 50 canhões russos, poderiam ter pensado nisso. Foram trucidados, claro. Apenas 195 sobreviveram para receber medalhas.)

E por fim, a mais famosa de todas:

“A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar.”

Foi essa frase que me motivou a escrever esta postagem. Ela diz muito sobre a atitude, normalmente equivocada, do paciente com dor crônica sobre como se postar diante dessa dor. E por que a sua atitude seria equivocada? Simples: porque ele luta para ganhar.

Suponha que você acaba de ser diagnosticado com a síndrome do intestino irritável, uma doença crônica, cuja cura definitiva é improvável.

O que você mais deseja assim que chega em casa?

Uma coisa só: sair dessa. Livrar-se da dor. Por completo. O quanto antes.

Se o médico disse que a dor crônica dificilmente tem cura definitiva, você provavelmente nem ouviu. E se ouviu, depois do baque causado pela notícia, o primeiro que pensou – principalmente, se já colecionou vitórias na faculdade, no trabalho ou nos negócios – foi:

“Deixa comigo, eu vou vencer essa parada”.

E lá vai você cumprindo com o primeiro tratamento prescrito pelo médico. Que demora uns quantos meses em convencê-lo de que a ideia, enfim, não vingou. O primeiro fracasso dos muitos com que a dor crônica e a medicina convencional irá brindá-lo seguidamente ao longo do tempo. De um tempo, aliás, bem parecido com o infinito.

Mas você, um(a) valente, persevera, uma e outra vez, assistindo a um desfile interminável de, mais ou menos pela ordem:  fisioterapeutas, fisiatras, osteopatas, nutricionistas, acupunturistas, psicólogos, psiquiatras e por fim, no desespero, feiticeiros.

E nada.

E depois isso, nada vezes nada. Você pensa, não, você sente que está na hora de desistir de tudo. Até da vida, literalmente, dependendo se o dia for chuvoso.

Fim da estória.

O que leva uma pessoa com dor crônica a dançar na beira do precipício? Um sistema médico impotente diante das doenças e dores crônicas? Planos/convênios médicos hostis? Fármacos inúteis, se não perniciosos?

Nada disso, em primeira mão. É o condicionamento e a ignorância, juntas e próprias.

Nós, humanos, somos condicionados a pensar a dor como se ela fosse sempre aguda. Ou seja, localizada, farmacologicamente dócil e com cura certa garantida após um tempo. Em se tratando de dor crônica, porém, esses vaticínios caem por terra. Surpreendentemente, isto é conhecido pela ciência que sustenta a medicina da dor, no entanto, por vários motivos que não cabe aqui comentar, essa informação não chega até o paciente. Até porque, em muitos casos, ela, a realidade, por ser desagradável é difícil de engolir. Aceitar que uma dor generalizada e persistente veio para ficar e que algum alívio poderá ser eventualmente obtido mudando hábitos à custa de muito esforço e paciência, é indigesto. Para muitos, permanecer ignorante funciona como um narcótico dos bons.

O paciente crônico que chega ao ponto de “desistir de tudo”, geralmente não tem a quem culpar, exceto ele próprio. (Antes de eu levar pedrada por parecer ignorar que boa parte dos portadores de dor crônica pertencem à Classe D, que padece mais por falta de meios do que de informação, preciso esclarecer que não esqueci disso. Apenas não tenho como transformar esta postagem numa empreitada sociológica. Eu sou obrigado a usar o que sei e isso alcança quem está mais para usuário de plano médico do que do SUS.)

A meu ver, o erro da maioria dos pacientes com dor crônica – eu já fui um deles – consiste em não antever, logo após ser diagnosticado, que um ataque frontal e decisivo contra essa condição – tão frontal e decisivo quanto o da Cavalaria Ligeira inglesa em Balaclava – seria igualmente derrotado antes de começar.

O que nos traz de volta ao Sun Tzu e seus pensamentos. Especialmente, o seguinte:

“Aceite o que está fora do seu controle pessoal e comprometa-se a tomar medidas que enriqueçam sua vida.”

A “Arte da Guerra” continua relevante hoje porque o seu autor deixou de lado táticas de batalha, preferindo focar na psicologia da guerra e em como aproveitá-la com sabedoria. Se você portar uma ou mais dores crônicas, você precisa fazer o mesmo.

Obviamente, a ideia de aceitar o que parece ser uma derrota pode soar repulsiva para a maioria. Afinal, quase todos nós, nos imaginamos como vencedores. E pode ser que alguns até o sejam, nos estudos, no trabalho, no esporte etc. No entanto, quem foi que diz que “Soldado que foge de uma batalha perdida fica pronto para lutar outra no dia seguinte”, ou algo assim?

Napoleão que não foi. E poderia tê-lo dito. Antes de Waterloo.

Para muitos, convenhamos, lutar contra a dor crônica geralmente é uma batalha daquelas. Perdida. Nenhum artigo científico sério sobre esse tipo de dor assevera o contrário. Mas você não precisa saber disso depois de a vaca ir pro brejo.

O inimigo, a dor crônica no caso, tem muitas razões para sê-lo – genéticas, ambientais, emocionais… – e muitas maneiras de atacar também, quase sempre ao mesmo tempo – dor, fadiga, sono… É temerário encarar esse formidável adversário de peito aberto, munido apenas de um ou outro fármaco e uma recomendação vaga referente a exercício, dieta, sono etc.

Portanto, se você for diagnosticado com dor crônica pense logo em lutar batalhas que você possa efetivamente vencer.

“Avalie a situação e calcule suas chances de vitória.” Ignore isto e você está frito. Literalmente.

Não convém embarcar num tratamento de dor crônica com a firme disposição de eliminá-la. O conselho soa escandalosamente derrotista, mas é sensato. E pragmático. A maioria dos casos em que ele é esquecido, acaba-se em frustração. E note bem, isso, a frustração – sentimento de tristeza diante de uma expectativa não realizada – aqui costuma ocorrer após anos e anos incorrendo em despesas médicas inúteis, decepções com familiares e amigos e, last but not least, progressiva sensação de abandono.  Ora, a essa altura, isso chama depressão e, acredite, ela só piora a dor e aumenta o sofrimento. Dessa fossa poucos saem.

Diante dessa perspectiva, o objetivo a ser perseguido deveria ser outro: recuperar funcionalidade e qualidade de vida.

Três razões:

  • Essa aspiração é viável. Mesmo com dor, pode-se descobrir uma “zona de conforto” mínima, cujas fronteiras podem ir depois sendo ampliadas gradualmente.
  • Isso é bom. Ficar ativo, saudável e em paz é o que a maioria de nós quer da vida; o que é perfeitamente possível apesar da dor.
  • Com algo de sorte, por tabela, a intensidade da dor pode acabar sendo reduzida.

Essas razões valem para todos os casos? Certamente, não. Como acontece, aliás, com qualquer vacina, antibiótico ou ansiolítico. Nem o mindfulness ou a respiração diafragmática “funcionam” para todo o mundo! Todos precisamos, então, de um pouco de sorte.

“Avalie a situação e calcule suas chances de vitória.”

Essa citação, aliás, surge logo no primeiro capítulo de “A Arte da Guerra.” Note que o termo usado é “chances” e não “certezas”, indicando que uma vitória absoluta, completa, sobre o inimigo está fora de cogitação. Sun Tzu bem sabia que ninguém sai incólume de um conflito armado. Provavelmente o mesmo desfecho reservado ao portador de dor crônica que encarar a sua dor crônica com a ideia fixa de extingui-la por completo.

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