A curva de novos casos de Covid-19 no Brasil

A curva de novos casos de Covid-19 no Brasil
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A pandemia criou uma situação em que os fatos são incertos, os riscos são altos e as decisões, muito urgentes. Na última semana, porém, isso andou se perdendo de vista. A melhoria das “estatísticas da Covid-19”, acompanhada pela flexibilização das medidas preventivas e a abertura de comércio e serviços, trouxe alívio coletivo. Muito saudável, não fosse ilusório, como eu penso que seja. Nesse post, as minhas razões.

Num post anterior, eu confessei a preocupação quanto ao Brasil repetir a partir de agora, a mesma cena de há 9 meses. Embarcando numa flexibilização inoportuna e sem lastro, que pode até acelerar a pandemia – como de fato aconteceu em 2020.

O meu ceticismo certamente deve causar repulsa e ódio em muita gente boa. Nada mais natural. Aliás, tomara que eu esteja errado! Hoje em dia, nada me faria mais feliz. Contudo, na minha experiência, própria de “índio véio”, lutar com a realidade nunca dá certo. E a realidade, no caso, não traz bons augúrios para quem pensa que, como noutros países, as coisas por aqui estão se normalizando ou a caminho de sê-lo.

Duvido. E mesmo sem querer convencer você de nada, gostaria de expor os meus argumentos.

Vejamos:

  • O que todos nós queremos que aconteça?
  • O que provavelmente irá acontecer? 

O que todos nós queremos que aconteça com a Covid-19?

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Obviamente, que a curva epidemiológica (a dos novos casos de Covid-19) caia, e que o faça como ilustrado acima.

Entre os fatores que agem nessa direção estão:

  1. a campanha de vacinação,
  2. o efeito de restrições à movimentação humana mais severas, organizadas e fiscalizadas, e
  3. o medo gerado por estatísticas diárias sobre novos infectados, internações e mortos, na população.

Os 3 fatores estão posicionados acima da curva, uma vez que o seu peso pode vergá-la.

O que provavelmente irá acontecer com a Covid-19?

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Forças inibitórias impedirão a queda da curva na cadência desejada.

Dentre elas, destacam-se as 8 seguintes:

  1. Manutenção da postura omissa do Governo federal e da incompetência do Ministério da Saúde, quanto a condução do combate a Covid. Batata.
  2. Permanência de ao menos 7 das 23 acusações feitas ao Planalto, constantes do relatório elaborado pela Casa Civil (segundo dizem, se antecipando a CPI). Tiro e queda.
  3. Incumprimento das medidas de higiene anti-Covid, por parte dos idiotas de sempre, e agora dos que receberam a vacina e se acham protegidos. Garantido.
  4. Campanha de vacinação pífia. Falta de vacina + incompetência operacional (envolve todos os relacionados na corrente que vai desde a Índia ou a China até o braço de quem deveria receber a vacina legalmente). Pode apostar.
  5. Insuficiência dos dois principais fornecedores de vacinas produzidas no Brasil (importação suspensa de vacinas pela Índia, burocracia e/ou má vontade dos chineses (plenamente compreensível face às agressões verbais vindas do lado bolsonarista). Dado por certo.
  6. Frieza (plenamente compreensível, também) da administração Biden, quanto a facilitar o acesso do Brasil a lotes da vacina da Oxford-AstraZeneca produzida nos EUA. Inevitável, foram dados bons motivos para isso.
  7. Variantes à solta, das quais pelo menos 6 das classificadas como “preocupantes”, todas mais transmissíveis e algumas mais letais que a cepa original descoberta em Londres no começo do ano passado. Em curso.
  8. Dinâmica perversa do conjunto: se mantidas as condições acima (o que é muito provável), aumenta a chance de uma nova variante driblar o bloqueio das vacinas hoje sendo aplicadas, forçando a aplicação de uma terceira rodada de vacinação usando os imunizantes vigentes ou, pior ainda, a repetição da tragédia que é mendigar por vacinas de última geração pelo mundo afora. Mais do que previsível.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

A análise anterior não estaria completa sem levar em conta a robustez, capacidade de resposta, vitalidade, resiliência… ou como quiser chamar… da linha de frente do Sistema de Saúde.

Nesse momento, ela apresenta:

  1. Profissionais dizimados. Segundo memorial exposto no site do Conselho Federal de Medicina, até hoje (30/04/21), 810 médicos já morreram conta da Covid-19, e certamente muitos mais se infectaram e hoje amargam sequelas.
  2. Burnout (exaustão física e mental). De acordo com um estudo feito pela Pebmed em 2020, a prevalência de burnout é de 83% nos médicos na linha de frente da pandemia e de 71% naqueles que não estão atuando no combate à Covid-19. Ao todo, a síndrome impactou 79% dos médicos, 74% dos enfermeiros e 64% dos técnicos de enfermagem entrevistados.
  3. Recursos físicos em falta. Refiro-me a ventiladores, balões de oxigênio, EPIs etc., bem como a espaços para cuidados intensivos efetivamente habilitados para tal.


Conclusão:

  • O comportamento da curva dos novos infectados ao longo dos próximos 12 a 18 meses será sinuoso, e sua pendente, mais horizontal do que vertical.
  • Quanto mais esse comportamento da curva for mantido, maior e mais constante a pressão sobre o Sistema de Saúde.
  • Quanto maior a brecha representada por Alfa, à direita, maior o preço cobrado pela Covid-19 em termos de vidas perdidas.


Veja também o primeiro post sobre este assunto.

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