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A Coronavac – ou como vender insegurança à toa

A Coronavac – ou como vender insegurança à toa

Num esforço inédito, mais de 700 cientistas se uniram para criar uma vacina eficaz, do ponto de vista que a eficácia das vacinas é definida, ou seja, o de proteger toda uma população de uma doença. Em menos de um ano, o grupo fez o que normalmente demoraria vários. E isso, “contra vento e maré”, ou melhor contra o Planalto e a ANVISA, sejamos claros. No entanto, o que se vê atualmente é, de um lado os cientistas falando entre eles e comemorando que os 50% de eficácia da vacina garantem o controle da pandemia, e de outro lado, o respeitável coçando a cabeça e pensando que algo nesse discurso cheira mal: afinal, todo mundo sabe o conceito probabilístico que há por trás do “cara ou coroa”. Esse post visa abordar construtivamente essa situação, por demais delicada. Haverá outros momentos em que cientistas serão chamados a explicar coisas importantes pela mídia, e eles sabem que convém aprender com os erros.

“É engraçado. Tudo que você precisa fazer é dizer algo que ninguém entende e eles farão praticamente qualquer coisa que você quiser.”

JD Salinger

Talvez seja o momento certo para eu ficar quieto. Parece-me que a comunidade científica estendeu um compassivo manto de proteção sobre os protagonistas das três apresentações da vacina CoronaVac realizadas até agora. Certamente que eles merecem, o esforço realizado foi diuturno, massivo e cientificamente impecável.

Mas talvez não. Fora os méritos, houve erros, um monumental mal entendido e ainda há dúvidas sobre o que essa vacina pode oferecer.

Os Méritos

A vacina é sensacional, dizem os entendidos, porque evita casos graves, controla os leves e dá 50% de proteção aos bípedes susceptíveis. O que a mim mais me impressionou, todavia, é a natureza “robusta” da amostra por ser formada por profissionais da saúde. Nada tão inédito quanto o apregoado, uma vez que a Oxford AstraZeneca também seguiu caminho parecido, mas nem por isso menos relevante. Preocupar-se com os “casos importantes do ponto de vista clínico”, ao invés de com a eficácia global, pela necessidade de correr contra o tempo, também foi meritório; isso certamente deveria ter sido mencionado em dezembro. Ou seja, trocou-se abrangência por velocidade, a custo de um desgaste biológico e mental que por sinal ficou patente na fala algo exaltada do diretor geral.

Os Erros

A meu ver, a comunicação sobre a CoronaVac foi equivocada em muitos aspectos. Isso já é vox populi, mas convém destacar alguns pontos. O mais notório, o de não ter havido transparência nas duas primeiras apresentações, e por cima, na terceira ter se evitado reconhecer isso publicamente. Ora, nobreza obriga; o respeitável merecia uma explicação. Afinal, o Instituto Butantan e o seu mantenedor, o Governo de São Paulo, são entidades públicas ora preocupadas com questões do mais alto interesse da população. Não adianta juntar tanta gente cheia de curriculae atrás de microfones e depois dar gratuitamente a impressão de que algo está sendo ocultado.

Parte do erro de comunicação também abrangeu a linguagem usada. Disso, eu já reclamara num post anterior. “Eficácia”, “incidência”, “fase 3”, “imunogenecidade”, “casos importantes do ponto de vista clínico”, “imunidade coletiva”… são termos corriqueiros para epidemiologistas e curiosos (como eu, com muita honra), mas não para os visitantes deste blog, por exemplo. Custava nada, logo no início das apresentações divulgar um glossário e explicar o bé-a-bá de um ensaio clínico vacinal. E falando em apresentações, será que os cientistas – a maioria deles com vasta experiência docente – não percebem, ou não se importam, com que a plateia simplesmente não consiga LER os textos que costumam amontoar nas transparências que mostram? Especialmente se, como podia ser previsto face o horário (11:45 hs), boa parte dos interessados no evento o acompanhariam via celular?

O “Mal Entendido”

Um dos principais motivos para a celeuma criada em torno da eficácia da vacina não foi apenas o de ela não ter sido exposta quando devia, mas também a insistência, por parte dos apresentadores, de repetir, repetir e repetir, em entrevistas mil concedidas à mídia antes desta última coletiva, que uma vacina acima de 50% seria boa, satisfatória, eficaz, ou como quiser chamar… sem especificar o beneficiário. Como é que 50% poderia ser melhor PARA MIM, que os 78% (o anunciado na semana anterior) ou 95% (as taxas de eficácia das duas americanas, Pfizer e Moderna)? Os mais sabidos em matemática (ou aritmética, já serve) até pensaram em probabilidades: ora, se a chance de EU pegar a Covid-19 com a vacina da Pfizer é de 5%; e de 49%, com a da CoronaVac – como esta última pode ser tão boa assim?

Um grande, enorme mal entendido, há por trás dessas elucubrações – e os cientistas bem que poderiam tê-lo evitado. Sim, a vacina da CoronaVac é excelente porque, pressupondo que a campanha de vacinação seja abrangente e dê tão certo quanto falam, ela é capaz de controlar a pandemia no PAÍS. Ou na COLETIVIDADE, para usar o termo na moda. Isso, matematicamente não há como negar. Equações e algoritmos o atestam.

Ok, eu até acredito, diz o Zé das Quantas, mas e EU? Repetindo: e EU? Ora, EU não só o PAÍS. EU, bem, eu sou EU. “Ah, mas você tem que pensar no coletivo”, dizem (e supõem) os cientistas e os políticos. Nada disso, responde a consciência do Zé: EU sou EU, e coletivo por coletivo, EU sou mais o da MINHA família – esse é o único coletivo com o que EU, para efeitos vacinais, me importo.

Não gostou? Bem, a vida é assim. A natureza humana, também. E acredite: sobra história e ciência para comprová-lo.

Duas perspectivas diferentes, então. A do cientista/político, que estudou e é pago para pensar no coletivo, e a do Zé das Quantas, que como bom ser humano típico, só pensa em si mesmo.

Se os apresentadores da CoronaVac tivessem explicado isso com clareza, ou crueza – “Gente, nós aqui achamos esses 50% da vacina sensacionais porque pensamos no país, e se isso não desce bem em vocês é porque vocês são humanos e só pensam em si mesmos” – a confusão que criaram teria sido menor.

A questão de “nós aqui e vocês lá”, por sinal não acabou. Agora o General Pazuello está cogitando estender o prazo entre as duas doses das vacinas para proteger “o coletivo”, uma vez que – num fugaz estalo de clarividência – ele descobriu que a pandemia saiu do controle. Porém, nenhum dos ensaios clínicos dessas duas vacinas testou a possibilidade da imunidade concedida pela vacina – imunogenicidade, é o termo técnico – se estender por mais de 28 dias. Isso irá constatar quem se der ao trabalho de ler o artigo publicado na The Lancet em 18 de novembro 2020, em que destrincha o achado na fase 2 do ensaio clínico da vacina da Oxford AstraZeneca.1

Quanto à CoronaVac, o que a fase 2 mostrou foi publicado pela The Lancet um dia antes, no 17 de novembro. A vacina era segura e gerava anticorpos dentro dos 14 e 28 dias, porém nada sobre uma extensão de prazo após tomar a primeira dose.234

Portanto, se a segunda dose das duas vacinas oferecidas pelo Ministério da Saúde nos próximos dias se estender além dos limites do ensaio clínico, o Zé das Quantas novamente terá que abrir mão da SUA proteção ao risco em benefício da coletividade – e dessa vez, sem cobertura científica baseada em evidências. Somente será possível saber se o organismo humano consegue gerar e manter anticorpos suficientes para barrar o vírus além dos 28 dias de tomar a vacina… depois do vigésimo oitavo dia. Nada contra. Viva-se com isso. Apenas deixemos as coisas claras.

As Dúvidas

Embora na fase 2 da CoronaVac idosos foram incluídos – e considerados satisfatoriamente protegidos – eles ficaram de fora na fase 3. As grávidas e os menores de 17 anos, nem da fase 2 fizeram parte. O Diretor do Butantan anunciou que esses três grupos futuramente mereceriam testes específicos. Tudo bem? Mais ou menos. Os dois últimos grupos podem ficar tranquilos; as grávidas não serão vacinadas no começo da campanha e os com até 17 anos… bem, quem é que se preocupa com qualquer coisa exceto o ENEM, nessa idade? Agora, os idosos teremos que deduzir alguma coisa do que foi dito de passagem durante a coletiva: se a CoronaVac funcionou para o pessoal da linha de frente, deverá funcionar também para nós. Certo?

Tomara.

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