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A ciência ainda é um monstro

A ciência ainda é um monstro

Reproduzir no blog matérias do médico gaúcho André Islabão é sempre um prazer. Porque para escolher alguma eu devo ler várias de sua autoria, é isso é sempre reconfortante. Afinal, uma prova de que ao sul do Rio Grande tem vida inteligente. A postagem a seguir se refere a um tema que joga sal numa ferida ainda aberta em mim. Refiro-me a quando, nos primeiros meses da pandemia, eu ofereci a uma associação médica, de graça, um aplicativo contendo um jogo digital ensinando tudo o que uma pessoa normal precisava saber sobre a Covid-19. “Não pode”, foi a resposta dada pelo gatekeeper da vez, um idiota que se dizia defensor da Medicina Baseada em Evidências e etcétera. Ora, faltavam evidências científicas para admitir que usar máscara ajudaria a reduzir os efeitos de uma doença transmitida pelo ar? Bem, no seu post o André trata de como exageros estúpidos transvestidos de ciência podem prejudicar seres humanos, entre outros exemplos, todos muito interessantes e ajustados à nossa realidade. O conjunto justifica porque a ciência – a médica, no caso – pode ser, sim, um monstro.

Autor: Dr. André Islabão

Em suas Lições Trentinas – um conjunto de conferências realizadas na cidade italiana de Trento na década de 1990 –, o austríaco Paul Feyerabend causou furor no meio científico ao dizer que a ciência era um monstro. A frase de efeito queria significar apenas que não existe algo como uma “ciência” única, mas sim um emaranhado de atividades científicas que podem ser diversas, heterogêneas, desarmônicas e amiúde conflituosas. Da mesma maneira que não existe algo como uma “religião” ou “arte” únicas, e sim diversas crenças e atividades criativas absolutamente diferentes, não poderia existir uma ciência única, o que segundo ele seria apenas um construto artificial criado por marqueteiros, reducionistas e educadores. Os cientistas podem – e devem – ser críticos e criativos, divergindo entre si em nome da própria evolução do conhecimento científico.

Talvez o que identifique as várias modalidades científicas entre si seja exatamente o método, aquele mesmo que foi criticado pelo próprio Feyerabend em seu primeiro livro (Contra o Método). Para que uma atividade seja científica, devem ser consideradas uma série de prerrogativas. Isso inclui a necessidade de que os pesquisadores sejam absolutamente imparciais (caso contrário, a atividade deixa de ser científica e descamba para o âmbito da promoção e da propaganda), além de seguirem um método rigoroso que possa ser analisado e replicado por outros pesquisadores a fim de que as afirmações e os resultados possam ser posteriormente confirmados ou refutados, o que faz com que a ciência possa ser depurada e evolua continuamente.

Nossos problemas começam ao percebermos que a ciência médica atual está se distanciando cada vez mais deste método científico ideal. Com inacreditáveis 75% das pesquisas clínicas na área da saúde sendo realizadas pela própria indústria farmacêutica1, com todos os vieses inerentes a essa realidade, estamos muitíssimo distantes do ideal de imparcialidade exigido para que uma atividade seja considerada como realmente científica. A triste constatação é de que fomos pouco cuidadosos ao entregar a pesquisa clínica de bandeja para a indústria farmacêutica e acabamos criando um monstro, ou pelo menos uma versão bastante deformada da ciência bela e imparcial que deveria embasar cada uma de nossas atividades clínicas na medicina.

A ciência médica vira um monstro ao se deixar controlar por interesses corporativos que distorcem seus objetivos e muitas vezes ameaçam a saúde das pessoas e a própria sustentabilidade dos sistemas de saúde. Neste caso, em vez de realizar estudos científicos que tenham como objetivo principal a descoberta de intervenções que possam reduzir de maneira clinicamente relevante o sofrimento das pessoas doentes, a ciência atual muitas vezes tem delineado seus estudos de maneira a facilitar a aprovação dos medicamentos pelas agências reguladoras, mesmo que essas drogas não tragam qualquer benefício clínico relevante para a imensa maioria das pessoas.23 Ainda que não se possa afirmar a priori que toda pesquisa financiada pela indústria é enviesada, seria uma grande ingenuidade supor que ela deixe de fazer tudo ao seu alcance (delineamentos tendenciosos, análises seletivas, pressão sobre pesquisadores, supressão de resultados negativos e casos extremos de fraude) para garantir resultados positivos para si quando isso pode significar lucros bilionários para a indústria. Além disso, o enviesamento sistemático das pesquisas desenvolvidas pela indústria já foi adequadamente demonstrado em diversos estudos.456

A ciência também toma feições monstruosas quando assume um caráter dogmático e não permite a crítica feita por aqueles que podem ter uma visão diferente.7 Um comportamento dogmático e autoritário era tradicionalmente visto no âmbito das religiões e dos regimes políticos totalitários. Tradicionalmente, a ciência sempre defendeu e até mesmo dependeu da crítica construtiva e de uma abordagem baseada em uma “epistemologia evolucionista”, na qual as ideias são publicadas, analisadas e criticadas a fim de que a própria pressão evolutiva resultante das críticas de toda a comunidade científica acabe selecionando as melhores teorias para ir adiante. Ao censurarmos as críticas e cancelarmos os críticos, priorizamos os lucros da indústria e a autopreservação do establishment científico em detrimento do benefício da sociedade. Além disso, criamos um conjunto de conhecimentos bastante diferente do que seria de fato uma “verdade científica”.

A ciência adquire um aspecto ainda mais grotesco quando ataca gratuitamente outros saberes em nome de uma suposta superioridade moral, como se a própria ciência fosse isenta de problemas graves ou como se essas chamadas “pseudociências”89 ou “não ciências” – como as artes, as religiões e as filosofias diversas – não fossem elas mesmas imensamente importantes para a humanidade. O próprio Feyerabend já condenava isso que ele chamava de “chauvinismo científico”, esta crença infundada de que só teria direito a existir na sociedade aquilo que estivesse ungido pela “água benta” da ciência, buscando-se ativamente a destruição de tudo aquilo que não seja científico, mesmo que isso inclua saberes antigos e caros à humanidade. Em uma sociedade ideal, a ciência saberia conviver de forma absolutamente harmoniosa com outros saberes, cada um sendo responsável por auxiliar em aspectos distintos da vida das pessoas.

É evidente que o físico e filósofo da ciência Feyerabend não tentava destruir a ciência – seu objeto de estudo e trabalho – ao compará-la a um monstro em suas críticas. A ciência é uma criação humana da maior importância e deve seguir balizando uma parte considerável de nossas ações na sociedade. Porém, não é razoável permitir que algo tão importante como a ciência médica, a qual tem impacto direto sobre o trabalho médico e a vida das pessoas, esteja entregue às mãos gananciosas da indústria farmacêutica e das grandes corporações. Uma empreitada importante como a ciência não poderia estar tão suscetível aos vieses econômicos que a distorcem e minam a sua credibilidade. A defesa incisiva e total da ciência como algo uno traz consigo o risco de transformá-la em uma espécie de monstro sagrado imune a críticas e, assim, de que seus problemas, tão graves quanto evidentes, não sejam percebidos nem muito menos resolvidos. Como vemos, criar monstros é mais fácil do que parece. Desconstruí-los pode ser bem mais complicado.

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