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A arte de espantar dinossauros

A arte de espantar dinossauros

Se você é uma dessas pessoas que, como eu, vivem correndo atrás de um prejuízo imaginário, sem tempo para nada, como se o mundo fosse acabar amanhã (ou antes), num descuido pode pensar que, quem sabe, de repente convém levantar a vista e dar uma olhada no contexto. Afinal, onde a gente está? Num país, numa profissão, numa família, numa época… enfim, vários aspectos da vida da gente que, via de regra, a gente no dia-a-dia nem percebe. Este post é sobre um desses aspectos: a medicina contemporânea. Ou melhor, a atual prática da medicina que diz respeito a nós, pacientes. O que experimentamos quando uma dor qualquer nos induz a passar pela farmácia, marcar uma consulta médica, ou fazer acupuntura. A medicina que temos, vemos e que, cada vez com maior frequência, sofremos.

Nota do blog:

Se não me engano, esta é a segunda postagem em quase cinco anos que… eu não escrevi. O autor é um médico internista, gaúcho, músico, pintor, escritor e sabe-se lá quantas coisas mais. Uma avis rara. E principalmente um iconoclasta. O que é isso? “Um indivíduo que não respeita tradições e crenças estabelecidas ou se opõe a qualquer tipo de culto ou veneração seja de imagens ou outros elementos”. Isso, então. Ou algo mais, porque, como chama o iconoclasta que age como tal dentro do seu próprio ambiente? Algo assim como um palmeirense gritar “Curintia!”, num clássico, no meio da Mancha Verde. Um super-iconoclasta, então?

Ou mais ou menos isso. O fato é que o post a seguir me foi enviado por um amigo neurologista, iconoclasta também ele. Eu achei-o muito espirituoso para ser sobre medicina (coisa rara, no Brasil), além de estar bem escrito. E acima de tudo, iconoclásticamente oportuno. Saindo da confortável mesmice do seu meio, o Dr. André Islabão, eis o nome do nosso colaborador, ecoa a percepção de outros colegas iconoclastas seus, que hoje, na América do Norte, na Inglaterra, na Australia, na União Europeia, vêm pensando “fora da caixa” sobre os rumos da medicina clínica. E que estranhamente se atrevem a dizer ou escrever o que pensam. A dizer, por exemplo, que no que diz respeito ao tratamento da dor crônica, os achados da medicina baseados em neurociência atualmente apontam na direção contrária da medicina convencional que o paciente recebe pagando um plano de saúde.

Exemplos semelhantes há muitos. mas não vou aqui antecipar a mensagem do Dr. André, que é mais bem escrita e fundamentada – eu não sou médico – que a minha. Até porque eu quero me manter em bons termos com ele, que me autorizou gentilmente a reproduzir as postagens que hospeda no seu site, o que eu pretendo fazer para benefício dos nossos visitantes.

A ARTE DE ESPANTAR DINOSSAUROS

Por André Islabão

Aquela era uma típica cidade de interior. Nada de prédios altos, apenas casinhas dispostas em volta de uma praça, a qual também abrigava a única igreja da cidade. Era por ali que os moradores se reuniam e onde o maluco da cidade circulava diariamente. Todos já o conheciam e sabiam de cor o seu ritual. Ele chegava até o centro da praça e iniciava uma série de danças extravagantes, falava em uma língua que parecia incompreensível aos demais e derramava pelo chão da praça as mais estranhas substâncias. Ao ser questionado pelas pessoas sobre o motivo daquele ritual todo, ele dizia que estava a “espantar os dinossauros”. Quando seus interlocutores anunciavam, pasmos, que por ali não havia dinossauros, o maluco respondia: “Viu como funciona?”

Afastar males distantes e improváveis não é coisa apenas de malucos, pois existe gente bem esperta que se vale de uma lógica parecida. Até mesmo a medicina convencional e séria às vezes exagera e segue um caminho parecido, pois toda vez que fazemos algum tipo de prevenção em massa, estamos de alguma forma afastando males que na maioria das vezes jamais ameaçariam a vida e a saúde das pessoas, o que pode ser facilmente evidenciado pelo tamanho do NNT (número necessário para tratar) ou do NNR (número necessário para rastrear) das diversas intervenções. Porém, essa medicina preventiva séria trata de situações em que já foi possível demonstrar cientificamente algum benefício razoável para as intervenções, o que justifica o seu uso em diversas situações. Ainda que muito se discuta sobre a validade de tratamentos preventivos e de rastreamentos de doenças em pessoas saudáveis, estamos aqui ainda no campo da ciência de verdade e da crítica construtiva. Nosso maior problema é aquela parcela de espertalhões dentro da medicina que insistem em se utilizar da mesma lógica dos dinossauros para “evitar” doenças.

Existe cada vez mais gente na medicina querendo faturar alto e se aproveitar da falta de discernimento das pessoas comuns. Há quem cobre verdadeiras fortunas por consultas de “medicina funcional integrativa” ou de outros nomes esquisitos e para dosar as substâncias mais bizarras e depois infundi-las em consumidores incautos. Isso faz parecer que vivemos uma verdadeira epidemia de deficiências dos mais variados micronutrientes e vitaminas. Nunca se ingeriu ou se infundiu tanto selênio, zinco, cobre e vitaminas diversas como hoje. Também nunca se demonstrou cientificamente que isso traga qualquer benefício palpável para as pessoas comuns. Além disso, nunca se usou tanto hormônio em doses suprafisiológicas como se faz atualmente, o que pode nos criar um grande problema logo ali adiante em termos de novos casos de cânceres, como os de mama e próstata. Talvez a nossa verdadeira epidemia seja de medo, toleima e desfaçatez.

Se todas essas coisas esdrúxulas fossem feitas por crença genuína em teorias científicas mirabolantes e não apenas por apego ao vil metal, a coisa não seria tão triste. O problema é que esse tipo de tratamento heterodoxo só costuma ser oferecido a pacientes que apresentem uma certa combinação de “fatores de risco”: são suficientemente ricos para gastar dinheiro em bobagens, são tolos o bastante para acreditar em curas milagrosas e são medrosos a ponto de fazerem qualquer coisa para evitar a doença, a velhice e a morte, como se isso fosse realmente possível. Em outras palavras: trata-se de pura charlatanice! E nossos charlatães modernos são muito parecidos com o maluco do início do texto, diferindo dele apenas por cobrarem rios de dinheiro para manter os “dinossauros” longe.

Ganhar dinheiro atendendo pessoas ricas e saudáveis ou afastando doenças inexistentes é relativamente fácil. Para isso basta ter cara de pau, um belo marketing e um estômago forte. Difícil é tratar pessoas realmente doentes. É muito fácil dizer a uma pessoa jovem e saudável que a sua caríssima infusão de selênio está prevenindo um câncer que apareceria dali a várias décadas, mas é muito difícil convencer um doente com câncer avançado que padece de dores ósseas de que uma infusão de selênio ou de qualquer outra substância miraculosa trará benefício para sua qualidade de vida. Da mesma forma, é fácil convencer um homem de meia-idade de que a fortuna gasta com vitaminas múltiplas está evitando que ele fique demente dali a algumas décadas. É bem mais complicado dizer a um doente com Alzheimer e a seus familiares que a medicina de verdade tem muito pouco a oferecer além de medidas paliativas que visam minimizar o sofrimento de todos. É por isso que a “turma do selênio” foge de pacientes realmente doentes da mesma forma que nosso espantador de dinossauros fugiria se encontrasse um tiranossauro de verdade na praça.

Fazer medicina de maneira séria e honesta está cada vez mais difícil. As tentações estão por todo lado, as redes sociais vivem mostrando picaretas bem-sucedidos e a própria academia médica e os nossos Conselhos de Medicina não parecem se importar muito com tais distorções e abusos, o que pode levar muitos jovens profissionais a enveredar pelo “caminho do mal”. Tal (des)caminho leva a um lugar fictício onde envelhecer, adoecer e morrer não existem, como se não fizessem parte da própria natureza humana. Isso pode fazer com que os profissionais do futuro estejam cada vez menos preparados para amparar e cuidar de quem adoece e sofre de verdade, como a medicina tem feito desde o início dos tempos. Como podemos ver, nem todo selênio do mundo nos livrará da estupidez, da ganância e da finitude.

A Arte de Espantar Dinossauros”, por André Islabão, publicado em 30/04/23.

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